Nossa aula pode ser uma ágora da ética

Em um contexto de descrença e ódios, vale lembrar que a ética, tão inflamada nos discursos de hoje, foi pensada como prática das virtudes no sentido da felicidade.

Vivemos um tempo em que muito se fala em ética, mas tantas vezes são discursos carregados de ódio. E ética nada tem a ver com isso. Aristóteles, há mais de dois milênios, chamou de ética a prática de virtudes, classificando virtudes como atitudes boas em relação a si e aos outros. Mais que isso: na visão aristotélica, a prática de virtudes na busca pela ética deve ter como objetivo ser feliz, principalmente num contexto coletivo.

Na Grécia de Aristóteles, um importante espaço de discussão pública era a Ágora, um tipo de assembleia ou “lugar de reunião” onde as pessoas interagiam presencialmente, e a democracia (que teve seu nascedouro em território grego) era direta, ou seja, as decisões aconteciam com os cidadãos participando e votando em cada tema proposto (lembrando que os considerados cidadãos eram uma minoria, pois se excluíam mulheres, estrangeiros, escravos etc).

Hoje, somos 7 bilhões no mundo, cada país tem seus milhões ou milhares de habitantes e a participação direta ficou impraticável, porém o conceito de cidadania cresceu: não é mais uma minoria que pode participar numa democracia contemporânea e sim praticamente todos a partir de uma determinada idade. Somos representados por quem elegemos para mandatos definidos e vivemos tempos de uma poderosa “Ágora” digital: a internet.

Acontece que, tanto a representatividade quanto o nível de discussões nas redes sociais, anda mal. O descrédito na política, as brigas partidárias carregadas de discursos maniqueístas e raivosos e os berros insanos das postagens digitais escancaram uma necessidade de se pensar na ética e nas virtudes sob um patamar mais elevado. E não há espaço melhor para se fazer isso do que a educação.

O cenário que se projeta hoje nos indica que, ou ensinamos as novas gerações a pensar e a agir com virtudes pela ética, ou os gritos ensandecidos e cheios de palavras de ordem só nos levarão às trevas, a uma realidade sem possibilidade da convivência, um país segregado por grupos que se imaginam donos da verdade absoluta e prontos para dizimar os que pensam de forma diferente.

Por isso é importante que transformemos nossas aulas num espaço de diálogo, em que se exercite a dialética, numa ode à diversidade humana e aos muitos benefícios de se aprender com o diferente, de praticar a busca do novo, de buscar soluções criativas e, acima de tudo, de conviver na diferença de opiniões, de natureza, de condição, de opções etc.

A ética não pode ser reduzida ao que se espera do outro, porque ela precisa estar na prática diária de todos, no mais simples ato dentro da aula ou em casa, na rua, no transporte público. Aquele lápis da escola ou a caneta da empresa não são meus, por isso não posso levar para casa; aquele banco para o idoso no ônibus ou no metrô é para os idosos, por isso não posso ocupar e fingir que não vi um velhinho precisando sentar-se; aquele semáforo vermelho é para parar, assim como o limite de velocidade é para respeitar.

Sem a prática das virtudes (ou, das regras de convivência) no âmbito de cada um, não praticamos ética e corremos um sério risco de cair na hipocrisia e na impossibilidade de viver em grupo. E, nesse cenário, ficaria impossível chegar à felicidade, que foi abraçada por Aristóteles como resultado da postura ética.

Precisamos praticar a ética para sermos mais felizes uns com os outros! Se queremos verdadeiramente um mundo melhor, é preciso melhorar a nós mesmos. Lembrando uma frase de Mahatma Gandhi: “Seja você a mudança que quer para o mundo”. A partir de então, teremos muito mais condições de reivindicar tudo o que desejamos dos representantes (que, lembremos, somos nós mesmos que elegemos), respeitando todos os que pensam diferente de nós.

Pode parecer um tanto utópico tudo isso, mas não há outro caminho para a ética senão a retidão das condutas, sejam elas individuais ou coletivas.

E, então, vamos fazer de nossas aulas uma Ágora da ética?

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

A escola, um país

Divida a classe em grupos e cada um ficará responsável por propor uma mudança na escola visando melhorias. As mudanças precisarão ser pensadas no sentido de melhorar a realidade de todos os que utilizam o local. Cada grupo terá um tempo para pesquisar e depois apresentar. Em seguida, coloque todos os projetos em discussão e em votação. Será um exercício de pensar em soluções, discuti-las com quem pensa diferente e praticar o diálogo em busca de consensos.

A diferença é fundamental

Proponha uma questão para que cada aluno, individualmente, resolva. Por exemplo: “O melhor tema para uma feira cultural seria….”. Peça que cada um escreva, depois embaralhe os temas e redistribua. Desafie os alunos a defender a ideia que receberam, que não é sua, mas a do outro. Será um exercício de entender a opinião diferente e, mais ainda, de encontrar argumentos em respeito ao pensamento do outro.

Qual a minha pegada digital?

Um exercício de reflexão importante é inspirar a autocrítica nos alunos em relação ao que postam nas redes sociais, pois muitas vezes, até sem perceber, eles estão utilizando o espaço digital para espalhar mentiras, intolerâncias, preconceitos, muitas vezes em tom de brincadeira. Sugerimos, então, dividir a classe em duplas em que um analisará o que o outro postou em mídia social nos últimos 10 dias e tentará descrever a pessoa apenas conforme as postagens. É uma maneira de entendermos como outras pessoas estão nos vendo considerando a imagem que estamos levando para a rede. Ela é boa?

ALGUMAS PÁGINAS INSPIRADORAS NO FACEBOOK:

– Mário Sérgio Cortella: um dos maiores educadores do Brasil, especialista no tema ética. Link: facebook.com/MarioSergioCortella

– Leandro Karnal: um dos professores mais inspiradores da visão filosófica e do pensamento crítico. Link: facebook.com/prof.leandrokarnal

– Razões para Acreditar: uma página que mostra situações reais de quem está mudando o mundo. Link: facebook.com/RazoesParaAcreditar

– A Boa Notícia do Dia: uma página que, diferente da mídia que centra suas informações nos problemas, foca soluções. Link: facebook.com/aboanoticiadodia

Texto, elaboração de atividades e pesquisa: Marcos Brogna | Foto: Shutterstock

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