É verdade que os homens não resistem? Como estamos educando

A semana termina com dois fortes motivos para refletirmos: as denúncias envolvendo o ator José Mayer e o cantor Victor Chaves. O primeiro, por assédio a uma figurinista da TV Globo, e o segundo, pelo indiciamento por agressão à sua ex-esposa. Os casos não são isolados em um país onde uma mulher é estuprada a cada 11 minutos e a violência doméstica contra a mulher está entre as maiores ocorrências. Ou seja, a realidade nos aponta uma enorme responsabilidade no sentido de educar pela igualdade de gêneros, tanto nas escolas quanto em conjunto com as famílias.

Ambos os casos relatados nos exemplos acima (e muito presentes no dia-a-dia de inúmeros anônimos que sequer chegam ao conhecimento da mídia) podem ter origem muito cedo, ainda na infância, quando diferenciamos o tratamento de meninas e meninos, dando liberdade demais para eles enquanto que, para elas, impondo regras de submissão.

Já na infância, quando uma mãe ou um pai determina que a menina é quem deve arrumar a cama do irmão enquanto este pode brincar, ou quando ela é que deve ajudar a lavar a louça e limpar a casa (porque isso “é coisa de mulher”) e ele não (porque “não é coisa de homem”), está-se educando para o papel da mulher no sentido de servir e o do homem, de beneficiar-se disso. Da mesma forma, na adolescência, quando um garoto é elogiado por ter “pegado todas” na balada enquanto uma garota é criticada (ou até punida) por ter feito a mesma coisa, o que se está ensinando é que eles devem ser “pegadores”, “garanhões”, enquanto elas devem se limitar ao papel de recatadas. E isso gera sofrimento não apenas a elas, mas também a eles, já que ambos são enquadrados em padrões muitas vezes impostos e que não pertencem à natureza de cada um.

A explicação que tanto o ator global quanto o cantor sertanejo deram logo que foram denunciados mostra os efeitos desse tipo de educação, tão presente ainda no Brasil. No início, ambos negaram as denúncias. José Mayer chegou a dizer que não era ele e sim seu personagem da novela que fez tal assédio, como se fizesse alguma diferença para a vítima. Já depois de escancarados os indícios, vieram com outro antigo argumento: “não resistiram”, foi mais forte que eles, ou, “foi um ato de desespero” (como disse o cantor).

Essas explicações valem muitas reflexões, pois elas também podem estar sendo ensinadas desde cedo. Pense na realidade das escolas e em como são tratadas meninas quanto às suas roupas, por exemplo. Em muitas instituições de ensino, diz-se que elas não devem usar saias ou shorts muito curtos e/ou apertados e isso não é necessariamente ruim, já que a intenção é preservar um ambiente de educação e respeito. Mas, a mesma regra vale para os garotos quanto ao comprimento de seus shorts e se suas calças são muito justas? A regra só vale para elas? Para piorar a situação, não é incomum ouvirem-se expressões do tipo “As meninas devem evitar roupas curtas porque os meninos não resistem”. Ora, será que, em vez de impor apenas a elas o cuidado com as roupas, não se deve ensinar a (e exigir de) eles respeito e autocontrole?

Nós, educadores, muito provavelmente fomos criados em culturas mais machistas (e é importante salientar que o machismo está na cabeça de homens e também de mulheres) e é natural a reprodução da forma como aprendemos. Mas, talvez seja importante pensarmos se não seria a hora de desconstruirmos o velho modelo para construir uma realidade em que as regras são para todos (eles e elas), assim como os direitos também são para todos (eles e elas).

Da mesma forma, vale refletir se há mesmo papéis que são “de homens” e “de mulheres”, e isso vale desde as brincadeiras em uma escola. Menina não pode jogar futebol ou brincar de carrinho? E quanto aos meninos, aos quais também se impõem algumas regras que muitas vezes os fazem sofrer? Menino não pode cozinhar, não pode brincar de boneca, não pode fazer balé? Por quê? Um garoto que aprende a carregar uma boneca, por exemplo, não pode ser um pai mais carinhoso quando (e se quiser) ter um filho? Quantas vezes ouvimos que “homem não chora” e vale a pergunta: por quê? Eles precisam ser insensíveis? É importante lembrarmos que essas imposições machistas também geram sofrimento aos meninos.

Seguindo o precioso legado de Mandela, que disse que aprendemos a ser racistas e é necessário desaprendermos, precisamos desaprender velhos preconceitos e nos conectar com uma era em que a igualdade de direitos (considerando todas as diferenças individuais) é um desafio gigantesco e uma tendência. No mercado de trabalho, para onde caminham nossos alunos, são cada vez menos toleradas (e vetadas em processos seletivos) posturas preconceituosas e machistas. E, mais importante que isso, na vida em geral as visões e ações preconceituosas causam muita dor e injustiça, tanto para a mulher quanto para o homem, porque todos acabam perdendo em uma estrutura de desigualdades e imposições de padrões artificiais.

Portanto, se nos desafiamos a educar, precisamos nos desafiar a aprender sobre as diferenças e a igualdade de direitos, desde cedo.

texto: Marcos Brogna | imagem: Pixabay

QUE TAL REFLETIR SOBRE:

– Meninas devem arrumar a cama enquanto meninos podem brincar? Por quê?
– Há brincadeiras só para meninos ou só para meninas? Por quê?
– Garotos que “pegam todas” são “garanhões” e meninas que “ficam com vários” são “galinhas”? Por quê?
– Só as garotas devem tomar cuidado com suas roupas ao irem para a escola, evitando saias e shorts curtos? E os garotos? As regras não são mais justas quando servem a todos?
– Os meninos não resistem a roupas curtas das meninas? Será que não precisam ser educados para resistirem em vez de elas terem de se preservar, por medo?
– Há profissões só de homens ou só de mulheres? Será?
– É verdade que mulheres são mais delicadas e homens não podem chorar? Ou será que isso não é ensinado, muitas vezes de forma impositiva?
– Você costuma fazer divisões sexistas da classe, tipo “meninos” versus “meninas”? Será que não seria interessante misturar mais em vez de segregar?

PUBLICAÇÕES/PROJETOS OPEE SOBRE O TEMA:

– Diversidade e Sexualidade: http://www.opee.com.br/index.php/diversidade-e-sexualidade/
– Trilogia Contemporânea/Diversidade: www.trilogiacontemporanea.com.br

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HEINEKEN: ELAS NÃO PODEM GOSTAR DE FUTEBOL?: https://www.youtube.com/watch?v=wrmKl_HV4-A
SKOL: REDONDO É SAIR DO SEU PASSADO: https://www.youtube.com/watch?v=g_8fnMtbdso
ALWAYS: FAÇA COMO UMA MENINA!: ttps://www.youtube.com/watch?v=mOdALoB7Q-0
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