O que é se dar bem e se dar mal na vida? Essa pergunta é tão complexa quanto necessária diante do que aconteceu recentemente em algumas escolas no sul do país e levantou a discussão sobre conceitos e preconceitos acerca das profissões e da dignidade humana.

Em uma atividade que se propunha lúdica e com o objetivo de incentivar o estudo para o vestibular, alunos travestiram-se de pessoas que, segundo eles, “se deram mal”, encarnando profissionais como empregadas domésticas, faxineiras, garis, porteiros, atendentes de lojas…

O caso ganhou uma enorme dimensão e foi noticiado do sul ao norte, do leste a oeste do país, gerando muitas críticas. E não foi sem motivo.

Entender como fracassadas as profissões que demandam mais ações braçais ou que requerem menos titulação escolar ou acadêmica é um erro. Simplesmente porque essas ocupações profissionais são tão importantes como quaisquer outras.

Façamos alguns exercícios de reflexão. Imagine a insalubridade de uma cidade sem coletores de lixo. Imagine os riscos de uma cirurgia sem o faxineiro que limpou o centro cirúrgico antes dela. Imagine a sujeira de uma rua sem quem limpe seu chão. As faxineiras, os garis, os porteiros, os atendentes, os coletores de lixo e quaisquer outros profissionais braçais são tão importantes quanto médicos, engenheiros ou advogados, simplesmente porque eles são essenciais para vivermos em sociedade.

Mais que isso, é importante imaginarmos além da questão da profissão, enxergando quão humanas são todas as pessoas que realizam esses serviços. Todas são tão dignas quanto quaisquer seres humanos! Portanto, relegá-las a uma condição inferior é uma cruel forma de discriminação, segregação, preconceito!

Está na nossa Constituição Federal (artigo 5º) que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 1º), da qual o Brasil é signatário, que: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

A busca da convivência respeitosa e pela dignidade humana é ainda mais antiga que essas conquistas legais e documentadas. É um desafio que nos acompanha desde quando nos agrupamos em cavernas e começamos a imaginar a construção de sociedades civilizadas. Portanto, quando, em pleno século 21, com todo aparato de conhecimento e tecnologias disponíveis, regredimos à condição de barbárie, estamos rastejando na contramão da história.

Nossa luta como educadores, como pais, mães, familiares, professores, como alunos, como humanos que somos, é pela construção de uma realidade que valorize profissionais como faxineiras, empregadas domésticas, garis, coletores de lixo, atendentes de lojas. Precisamos ser capazes de construir uma sociedade que remunere essas pessoas com dignidade em vez de ensinar nossos filhos e alunos que esses profissionais são o retrato do fracasso.

Fracassada é uma sociedade que pratica e (pior!) ensina o preconceito em atividade escolar, que se utiliza da educação para debochar de pessoas que muitas vezes, mesmo recebendo salários muito pequenos, têm dignidade muito maior que as que ostentam enormes contas bancárias, status, cartões de visita folheados em ouro…

Sorte dos que ensinam pela dignidade. Sorte dos que veem na educação um caminho para o caráter. Sorte dos que constroem projetos de vida no sentido da ética, da colaboração, da coletividade, da justiça e da igualdade de direitos. Sorte dos que trabalham para servir. E azar dos que se apequenam em ver grandeza apenas no acúmulo de dinheiro e poder.

texto: Marcos Brogna | foto: Pixabay

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